Pular para o conteúdo

machismo estrutural

11/03/2017

Como contribuimos todos na manutenção do machismo estrutural que nos atravessa?

Na roda final de um encontro de facilitadores que durou alguns dias, onde o tema masculino e feminino foi recorrente, enquanto eu falava, um homem me interrompeu, se levantou, perguntou ao meu marido se permitia que ele se dirigisse a mim, e me pediu licença para demonstrar algo, me convidando a ficar em pé.
Meio chocada com a situação, e ao mesmo tempo curiosa, decidi me levantar para saber o que será que ele queria demonstrar que era tão importante a ponto fazê-lo intervir desta forma na minha fala, numa roda de fechamento onde cada um expressava suas palavras finais sem interrupções…
Gostaria de ter tido a presença para simplesmente relatar em voz alta o que estava ocorrendo no momento, da forma como fiz acima. Nenhuma outra pessoa, das cerca de 60 presentes, disse alguma coisa a respeito do fato.
Depois do homem voltar ao seu lugar e eu também, quando outras pessoas já tomavam a palavra para si, uma única pessoa – uma mulher – expressou que gostaria de ouvir o que eu estava dizendo quando fui interrompida. Eu estava ainda meio em choque e confusa, e se não fosse essa intervenção eu não teria retomado minha fala e terminado de me expressar.
Infelizmente esse foi o último dia do encontro e o assunto não pôde ser retomado no grupo.
Me ponho agora a pensar como é importante a conscientização e interrupção dessas “pequenas” ações (ou ‘não ações’) tanto minhas quanto dos outros, que contribuem para manter pensamentos e pressupostos tão impregnados dentro de nós que passam despercebidos e ficam inconscientes, mantendo o machismo na nossa sociedade: “os homens são de alguma forma proprietários de suas esposas”, “a voz de um homem é mais importante e tem prioridade em relação à voz de uma mulher”, “tudo bem um homem interromper uma mulher para ajudá-la a explicar algo”, “isso pode acontecer com homens também, não só com mulheres”, “isso é algo tão pequeno, deixa pra lá “, “a intenção era boa”, etc.
Se num grupo como esse, de facilitadores de processos grupais que buscam dar voz a todas as pessoas presentes e trazer mais horizontalidade às relações e grupos, essa “violência estrutural” teve espaço e passou despercebida, (já que a “intenção era boa” – contribuir com minha fala e dar um exemplo sobre o que eu estava falando), fico pensando o quão mais difícil é reconhecer e transformar as opressões sistêmicas a que nós mulheres somos submetidas (e nos submetemos) no dia a dia nos demais ambientes, sem muitas vezes nos darmos conta…
Anúncios
2 Comentários leave one →
  1. 14/04/2017 4:54 AM

    Olá Sandra!
    Você tem razão quando diz desta forma equivocada de atuação da nossa sociedade. Que diga a campanha, “mexeu com uma, mexeu com todas”, caso ligado ao ator José Mayer. No entanto, gostaria também de dizer que trabalho somente com mulheres. Meu papel, dentro do grupo é de Diretora Geral e, infelizmente, o que noto é que esta questão também está ligada a poder. O grupo tem uma forma de manifestação muito própria e sutil de demonstrar a quem realmente elas respondem. Enfim, é interessante e fico feliz em saber que alguém resgatou a sua fala. Isto também é um sinal de esperança. Não sei se consegui ser clara, mas é um dilema que também vivo no meu dia a dia. Beijão.

Trackbacks

  1. Por que a gente não conversa normalmente? | Psicologia e Psicoterapia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: