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Por que a gente não conversa normalmente?

20/05/2018

(Por Sandra Caselato e Yuri Haasz)

“Por que a gente não conversa normalmente?” – disse, bastante irritada, a pessoa mais privilegiada presente na sala onde estávamos, na Palestina no início do ano.

O privilégio não é algo estático, mas sempre relativo dependendo da pessoa e da situação. Por exemplo, um homem tem certas vantagens sistêmicas em relação a uma mulher em nossa sociedade (pesquisas estatísticas em vários países mostram que homens ganham mais que mulheres na mesma função por hora, por exemplo). Porém se este homem for negro, ele está sujeito a discriminação racial e mulher branca não. Uma pessoa cisgênera, que se identifica com o gênero (masculino ou feminino) atribuído a ela pela sociedade de acordo com o sexo biológico com que nasceu, tem mais vantagens em relação a pessoas transgeneras (que não se identificam com o gênero que lhes foi designado socialmente). Essas pessoas muitas vezes sentem que estão ‘no corpo errado’, são menos aceita pela sociedade e sofrem discriminação (o Brasil é o país que lidera o ranking mundial de assassinatos de transexuais). Porém se uma pessoa transexual tem bastante dinheiro, ela possui mais privilégios em nossa sociedade do que outras que não tem. Outro exemplo, em relação a nacionalidade: uma pessoa com passaporte americano ou de um país pertencente a União Europeia, tem mais facilidade para viajar a outros países do que quem tem passaporte brasileiro. Estes são apenas alguns exemplos de como o privilégio é sempre relativo a características e situações específicas.

Voltando à pessoa que disse  “Por que a gente não conversa normalmente?”,  ele é um homem branco, heterossexual, cisgênero, americano/israelense, de classe média alta, que ‘acumula’, portanto, vários privilégios, ou vantagens sistêmicas. No mesmo ambiente haviam outros homens e mulheres, todos ativistas, que buscam de maneiras diferentes por meio da não-violência, contribuir para transformações no contexto Israel/Palestina. Eram pessoas americanas, israelenses, palestinas, palestinas/israelenses, (nós dois brasileiros), brancas, não brancas, cisgêneras, hetero e homossexuais, judias, muçulmanas, cristãs, ateias, de várias idades.

Temos visto a tendência crescente dentro do ativismo em causas diferentes a uma maior conscientização em relação à importância da interseccionalidade das ‘causas’. Ou seja, vemos cada vez mais o reconhecimento de que as diferentes estruturas de dominação se interrelacionam, criando um sistema de opressão que reflete a sobreposição de múltiplas formas de discriminação. Por exemplo, o racismo, o sexismo, o classismo, o capacitismo, a homofobia e a transfobia e intolerâncias baseadas em crenças — não agem independentemente uns dos outros, mas interagem em níveis múltiplos e simultâneos. Da mesma forma que os privilégios se acumulam, as desvantagens (ou desprivilégios) também se sobrepõem. (Este conceito de interseccionalidade foi criado dentro do contexto do feminismo negro, principalmente por Kimberlé Crenshaw. Para saber mais sobre interseccionalidade, assista este TED Talk: https://www.youtube.com/watch?v=akOe5-UsQ2o )

O ativismo pelos direitos dos povos indígenas, por exemplo, está mais atento às questões de gênero e empoderamento feminino, como se pode ver nos vídeos a seguir:

A causa LGBTQIA busca também trazer à tona questões raciais e preconceito de classe, como acontece por exemplo na Conferência Internacional [SSEX BBOX], todo ano em São Paulo: http://ssexbbox.com

Da mesma maneira, o ativismo por justiça e pelos direitos dos palestinos está cada vez mais trazendo luz a questões de gênero e outras formas de opressão que se sobrepõem. Não foi diferente neste encontro  onde foi dita a frase “Por que a gente não conversa normalmente?”.

Apesar de racionalmente muitos ativistas estarem mais atentos às diversas questões de privilégio de raça, cor, nacionalidade, gênero, etc, suas ações ainda reproduzem muitas vezes essas opressões estruturais. E então, na tentativa de mudar um sistema de opressão acabam sem querer reproduzindo outras violências estruturais.

Neste texto, Noam Shuster Eliassi fala sobre como muitos ativistas judeus/israelenses de vários anos acabam perpetuando as desigualdades que querem erradicar: https://www.haaretz.com/opinion/.premium-why-is-the-american-jewish-left-so-white-1.6034201

A conversa ‘normal’ é talvez uma das formas mais imperceptíveis de reproduzirmos essas desigualdades. É como se ao ‘normalizar’ elas se tornassem invisíveis, principalmente para quem sofre menos o impacto dessas desigualdades, pois está em posição de mais privilégio ou, em outras palavras, de vantagem sistêmica, onde tem menos oportunidade de vivenciar situações em que o sistema não lhe inclui, e portanto tem mais dificuldade de entender que há outros que talvez não vivenciem o sistema da mesma forma.

Muitas abordagens, métodos, técnicas, processos, metodologias e tecnologias sociais conseguem contrabalançar essa tendência humana de ‘reproduzir o conhecido’, que dificulta e retarda transformações importantes nas diversas estruturas de poder das nossas sociedades. Dentre elas estão a Comunicação Não-Violenta (CNV); Abordagem Centrada na Pessoa (ACP); Processo U (Teoria U); Arte de Anfitriar Conversas Significativas (Art of Hosting – AoH), que engloba World Cafe, Pro Active Cafe, Apreciação Investigativa, Círculo, etc; Sociocracia; Democracia Profunda; Forum (Zegg); entre ouras.

Ainda assim, entre pessoas envolvidas com esses processos, as estruturas de poder também acabam se reproduzindo. Um exemplo de ‘machismo estrutural’, descrito por Sandra Caselato, aconteceu num encontro de facilitadores de várias dessas metodologias citadas acima: https://psicosaude.wordpress.com/2017/03/11/machismo-estrutural/

Apenas o fato de buscarmos praticar uma dessas abordagens que desnormalizam as formas de interagirmos não é em si garantia de que não reproduziremos as estruturas e relações de poder nas quais fomos socializados e que se tornaram parte de nossa identidade. É um exercício constante manter um olhar questionador para perceber se inadvertidamente estamos reproduzindo os modelos que estamos buscando transformar.

Voltando à pergunta “Por que a gente não conversa normalmente?”, esse questionamento foi feito durante um processo de Fórum, em que se sentam de 15 a  50 pessoas em círculo e um por vez vai ao centro e se expressa sem interrupções (com exceção de possíveis intervenções dos facilitadores do processo) e recebe escuta atenda e silenciosa, sem julgamentos, dos demais participantes. O objetivo é trazer à luz as coisas ‘não ditas’, numa pesquisa e investigação sobre questões profundas da consciência humana, a fim de fortalecer as relações e a conexão entre as pessoas.

Estávamos realizando este processo e devido a essa estrutura ‘anormal’ de fala e escuta, proporcionada pelo Fórum, coisas preciosas que nunca haviam sido expressas puderam ser ditas, dentro desse contexto do ativismo conjunto judeus/palestinos. As falas sobre o ‘não dito’ vieram principalmente das pessoas menos privilegiadas, que têm suas vozes menos escutadas no espaço coletivo – seja porque não se sentem tão à vontade e confiantes para falar, seja por terem ‘mais a perder’, seja porque suas falas não são tão ouvidas e valorizadas quanto as de outras pessoas com mais vantagens sistêmicas.

Na conversa ‘normal’ as estruturas de privilégio, vantagens e desvantagens sistêmicas, e as relações de poder nas quais estamos mergulhados culturalmente, tendem a se reproduzir. Os mais privilegiados se sentem mais a vontade para falar e portanto tomam mais espaço, e são mais valorizados, enquanto as vozes menos privilegiadas são menos ouvidas ou consideradas.

Então é por isso que cada vez mais preferimos e valorizamos as conversas ‘anormais’, estruturadas de maneira a buscar garantir igualdade de espaço e tempo para todas as vozes e contribuir para transformar as estruturas de poder e privilégio.

Durante nosso encontro na Palestina, o homem que disse “Por que não conversamos normalmente?” entrou no centro do círculo no Fórum e expressou que estava bastante irritado,  incomodado e bravo mesmo com toda a estrutura e “rigidez da conversa”, que para ele “não tinha vida”, “não tinha interação”, “não tinha troca” e era uma “perda de tempo”.

Ele não estava enxergando que somente por causa dessa ‘estrutura rígida’ é que várias pessoas puderam dizer coisas que nunca haviam dito antes, em anos de ativismo conjunto, e certamente não diriam numa conversa ‘normal’. Essa é a chamada ‘cegueira do privilégio’ – pessoas em posição de mais privilégio, que estão acostumadas a diversas vantagens nos vários âmbitos de suas vidas, têm mais dificuldade em perceber as desvantagens sistêmicas pelas quais outras pessoas estão passando.

Há uma citação frequentemente atribuída ao autor e professor Clay Shirky que diz que “quando você está acostumado ao privilégio, a igualdade é sentida como opressão”. O que a pessoa sente e percebe como opressão é um deslocamento para fora de sua zona de conforto, para fora da experiência de vivenciar certa facilidade nos inúmeros aspectos de sua vida, já que em grande parte o sistema social em que vivemos foi desenhado, organizado, pensado para favorecer principalmente essas pessoas.

A igualdade então depende de uma reorganização das diversas estruturas sociais, culturais, relacionais, físicas, de identidades, de distribuição de poder e recursos, etc., de maneira que todas as pessoas sejam consideradas igualitariamente.

Nessa readequação, os mais desprivilegiados passam a ter mais vantagens do que tinham antes e as pessoas mais privilegiadas têm suas vantagens reduzidas, passando então a experimentar os sistemas como somente os menos privilegiados experimentavam: algo não estruturado e pensado inteiramente para eles apenas, e sim, em parte, adequados para outros também.

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