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CNV – Transformando Consciências, Relações e Sistemas

12/02/2018

(Por Roxy Manning, com Janey Skinner)

Original em inglês disponível em http://baynvc.org/nvc-changing-consciousness/

Tradução: Angelica Rente e Caio M. Bessa

A Comunicação Não-Violenta (CNV) foi desenvolvida, em parte, porque seu fundador, Marshall Rosenberg, se inspirou no trabalho do Mahatma Gandhi, Dr. King e muitas outras pessoas que responderam pacificamente e, no entanto, poderosamente, a vastos abusos e desigualdades sistêmicas. Dr. Rosenberg testemunhou o poder transformador que um compromisso ativo e corajoso com a não-violência pode despertar. Como Dr. King, ele também acreditava que a transformação duradoura se origina não apenas na criação de mudanças externas, mas no trabalho para que essa mudança se origine de um lugar que acolha a humanidade de todas as pessoas.

Conforme os ensinamentos do Dr. Rosenberg sobre a Comunicação Não-Violenta se disseminaram, eles se afastaram, em muitos locais, da força poderosa de transformação social que ele imaginou. Muitas das pessoas que aprenderam este trabalho faziam parte dos grupos sociais dominantes em seus tempos. Nos Estados Unidos, o método de ensino baseado em workshops ressoou mais frequentemente em audiências brancas, de classe média, que tinham tempo, escolaridade e dinheiro para participar e que, na maior parte das vezes, buscavam pela liberação pessoal para a qual a consciência da CNV convida. Pessoas menos impactadas pelas desigualdades sociais tendem a focar nos aspectos de crescimento pessoal ou transformação interna oferecidos pela Comunicação Não-Violenta. Elas aplicam os conceitos da CNV às questões relevantes para seus mundos, sem consciência dos modos pelos quais suas perspectivas, moldadas pelos assuntos e ambientes que conhecem, representam apenas uma pequena fração do poder da CNV. Como resultado, uma crítica frequente é que ela ignora ou minimiza questões de raça, classe e outras diferenças sociais. Essa é uma falha na maneira pela qual a CNV tem sido aplicada e ensinada, não da abordagem em si.

À medida em que a CNV começou a se espalhar para comunidades menos privilegiadas, alguns dos modos pelos quais a sua prática se tornou restrita pelo status relativamente privilegiado daqueles que a praticavam se tornaram mais claros e até controversos, nos círculos que a praticam. Um exemplo é a exploração das “necessidades” no pensamento da Comunicação Não-Violenta. Nele, as necessidades são compreendidas como sendo aquelas qualidades vitais abstratas, como contribuição, respeito e compreensão, que todos os seres humanos buscam. Um princípio fundamental da CNV é que todas as ações humanas são tentativas de satisfazer necessidades. Todas as pessoas alinhadas com o pensamento da CNV acreditam neste axioma fundamental. Contudo, as implicações dele são vastamente diversas quando aplicadas com ou sem uma lente social. Como as pessoas interpretarão e se comportarão em relação a este axioma fundamental em relação às classificações sociais pode ser predito à partir de seus estágios de conscientização sobre as diferenças sociais.

Alguns praticantes com uma compreensão limitada das diferenças entre grupos assumem a crença de que todos os seres humanos têm as mesmas necessidades e que todas as necessidades são iguais, e então a aplicam a todas as interações. Estes praticantes, ao abordarem um conflito, por exemplo, em uma sala de aula entre um aluno negro e um professor branco, tendem muito mais a insistir que as necessidades do aluno e as do professor são iguais e que, portanto, devem ser respondidas com igual atenção e sem considerar poder ou privilégio. Eles podem alegar que, já que as necessidades de todas as pessoas são iguais, a pessoa que é historicamente menos privilegiada pode e irá comunicar suas necessidades e é igualmente capaz e responsável por ter suas necessidades atendidas, não importa seu poder real de influência sobre a situação. Quando realizada desta forma, a CNV ignora os efeitos da opressão sistêmica e da história pessoal. Ela não reconhece os diferentes graus de dificuldade que o aluno pode ter em confiar que suas necessidades importam para os outros. Ele pode estar se arriscando muito mais ao comunicar e defender suas necessidades. O aluno tem que lidar com o fato (que o professor talvez nem tenha razões para considerar) de que, quando pessoas do seu grupo falam, elas são, com frequência, ignoradas, quando não punidas ou até mesmo mortas. A aderência a esse foco restrito sobre a igualdade de todas as pessoas e necessidades é uma função da pouca consciência crítica de alguns praticantes, e não uma limitação da Comunicação Não-Violenta em si.

Praticantes da CNV com mais consciência crítica são capazes de aplicá-la em sua potência total. Quando a CNV argumenta que as necessidades de todas as pessoas importam, aqueles com um referencial intercultural mais avançado entendem como um chamado para oferecer às pessoas as ferramentas e o apoio de que elas necessitam para garantir que suas necessidades sejam, de fato, acolhidas com cuidado. Eles estão atentos à diferença entre igualdade e equidade e podem oferecer muito mais atenção e apoio a membros de um determinado grupo, a fim de garantir que suas necessidades emerjam e sejam cuidadas, em relação a um outro grupo que tem mais poder estrutural, para que a equidade seja atingida e todas as necessidades sejam acolhidas com cuidado. Os praticantes da CNV devem estar atentos às inequidades sistêmicas que continuam a persistir entre grupos e a abordarem e considerarem estes desequilíbrios, se realmente desejam dar prosseguimento ao trabalho que Dr. Rosenberg iniciou. De fato, pode ser prejudicial nos focarmos em uma igualdade simplista que ignora as estruturas sistêmicas. Tal foco pode levar à ideia de que o indivíduo é responsável por todas as circunstâncias em que se encontra, sem consideração ao fato de que indivíduos têm acessos vastamente diferentes à influenciar estas circunstâncias. A crença de que empoderar pessoas a reconhecer e defender suas necessidades não-atendidas é suficiente para superar iniquidades sociais, sem reconhecer as diferenças de poder social e político que os indivíduos possuem, carrega o risco de colocar a responsabilidade por ter ou não ter suas necessidades atendidas apenas no indivíduo e para longe do sistema como um local de mudança.

Tragicamente, alguns praticantes de CNV se focam na transformação de escolhas pessoais como a única maneira de abordar a violência estrutural. Por exemplo, eles podem sugerir que, se uma mulher está em uma relação na qual seu parceiro satisfaz suas próprias necessidades de “segurança” e “respeito” controlando o comportamento dela, ela tem a opção de deixá-lo, se a estratégia dele não funcionar para ela. Ainda que isso seja tecnicamente verdadeiro – todas temos a opção de ir embora – é uma compreensão fundamentalmente falha e limitada do que a CNV oferece em situações semelhantes. Ao focar-se apenas no comportamento da mulher nesta situação, o praticante falha em reconhecer a miríade de fatores que podem estar restringindo a escolha de mulher de abandonar seu parceiro ou de defender-se. Não está fora da alçada da CNV chamar o parceiro à responsabilidade pelo impacto de sua ação sobre esta mulher. Um praticante de CNV que está atento a como as normas relacionais tradicionais restringem a liberdade das mulheres pode convocar o parceiro a interromper o comportamento coercitivo ou pode apoiar a mulher a deixá-lo, com compreensão das barreiras que ela poderá ter que enfrentar. Um praticante sem esta consciência pode aplicar o referencial de sustentar a igualdade entre as necessidades de ambos os parceiros, sem reconhecer as diferenças nos impactos e no acesso ao poder e, assim, reforçar, inadvertidamente, os aspectos negativos das normas relacionais tradicionais.

Praticantes que estão totalmente embasados em uma compreensão sobre como as diferenças sociais têm atuado em suas sociedades podem aplicar a CNV melhor, de uma forma que maximiza seu potencial de mudança. Podemos aplicá-la para empoderar indivíduos e apoiá-los a enfrentar a injustiça, arcando com os custos de fazê-lo, da mesma forma que gerações de pessoas embasadas nos trabalhos de Mahatma Gandhi e Dr. King fizeram. Podemos usar a CNV para defender que mais necessidades sejam satisfeitas para mais pessoas. Podemos utilizar nossa compreensão dos sistemas que causam inequidades para dirigir recursos para transformar esses sistemas. Apenas empoderar pessoas ou apenas confrontar sistemas é incompleto. Ao ignorarmos o sistêmico, essencialmente permitiremos que as necessidades de alguns grupos continuem a ser sistematicamente não satisfeitas. Contudo, não podemos esperar que os sistemas mudem para que comecemos a empoderar indivíduos e comunidades, a cultivar as habilidades e a esperança necessárias para curar nosso mundo.

Participantes em um retiro de CNV experimentaram o poder de focar tanto no interpessoal, quanto no sistêmico. Um deles, um jovem afro-americano que estava pela primeira vez na costa leste, entrou numa mercearia em uma vizinhança rica da Califórnia do Norte com outro homem negro. Quando tentou fazer uma retirada de dinheiro no caixa, ele foi informado que teria que voltar em 15 minutos, porque a máquina não estava operando. Quando ele voltou, foi abordado por um policial. A caixa havia chamado a polícia porque acreditava que ele havia roubado a loja previamente, baseada apenas na cor da sua pele. O policial pediu seus documentos. Alguém que ouvisse essa história sem a lente da justiça social poderia acreditar que foi um simples caso de identificação equivocada. O participante afro-americano poderia simplesmente entregar sua carteira de identidade e o erro seria corrigido. Ele poderia voltar ao retiro de CNV e receber empatia pela dor e pela raiva estimuladas por esse evento, direcionada ao seu impacto individual. Ao olharmos através de uma lente na justiça social, surgem muitas preocupações em relação a essa estratégia, dado a longa história de homens afro-americanos sendo acusados e incapazes de limpar seus nomes, apesar de provas abundantes de sua inocência. Além disso, simplesmente cuidar do impacto deste evento através da empatia e do apoio individual não faria nada para prevenir que uma experiência similar vitimasse o próximo homem negro que entrasse na loja.

Alternativamente, o homem nesta história e os participantes do retiro usaram o poder total da CNV para apoiar tanto o indivíduo, quanto a necessidade de mudança sistêmica. Ao invés de entregar suas identidades, os dois jovens apoiaram um ao outro enquanto expressavam sua dor e tristeza pela acusação por roubo feita ao homem negro simplesmente devido a sua cor. Eles empatizaram com o policial tentando fazer seu trabalho e, ao mesmo tempo, insistiram em serem tratados com dignidade e respeito. Ao final, frente a sua insistência não-violenta em terem seus direitos honrados, o policial foi capaz de reconhecer as circunstâncias frágeis que levaram a caixa a chamá-lo e os homens puderam ir embora sem entregar seus documentos. Eles voltaram ao retiro e, então, realmente alavancaram o poder da comunicação não-violenta. Após terem apoio empático da comunidade, o jovem afro-americano expressou seu espanto por ter tido, pela primeira vez na sua vida, um encontro com a polícia que não resultou em consequências severas para ele e pelas outras pessoas da comunidade terem sido capazes de compreendê-lo e apoiá-lo. Então, todos se juntaram para identificar as necessidades não satisfeitas tanto do indivíduo, quanto da comunidade mais ampla. Eles decidiram protestar não-violentamente contra o que aconteceu e convocar a loja e o departamento de polícia local a mudarem suas políticas. Mais de 30 participantes do retiro foram até a loja e aguardaram, enquanto o jovem, um facilitador e um membro da comunidade conversavam com o gerente. Eles foram capazes de expressar o impacto de terem experimentado essa situação e asseguraram o compromisso do gerente da loja de levar esta questão à gerência geral, juntamente com os pedidos por educação e mudança. Ao focarem no apoio ao indivíduo numa situação desafiadora e, então, identificarem e desafiarem os padrões de discriminação que levaram a este evento, o homem negro e os participantes do retiro foram capazes de aplicar a CNV e uma lente de consciência crítica para pedir por mudanças que podem impactar muitas pessoas.

É importante reconhecer que, por serem constituídos por pessoas, os círculos de CNV refletem as sociedades mais amplas das quais fazem parte. Mesmo enquanto se esforçam por mudar a forma como respondem aos seus ambientes usando a CNV, seus praticantes ainda podem estar cegos para as formas nas quais seu foco é limitado por uma visão de mundo não examinada ou questionada. Conforme o número de praticantes da CNV que se tornam criticamente conscientes cresce, eles estarão mais aptos a intervir, não apenas no nível pessoal, mas também no sistêmico. Quando isso acontecer, nós finalmente manifestaremos a visão de mudança individual e sistêmica do Dr. Rosenberg, em direção a um mundo mais igualitário e não-violento.

 

Roxy Manning, Ph.D., é psicóloga clínica e instrutora certificada pelo CNVC, assim como consultora colaboradora para o BayNVC’s Center for Efficient Collaboration. Ela também é co-fundadora e instrutora do Retiro de Liderança Não-Violenta para Justiça Social, que está em seu 12o ano de realização. Ela está disponível para consultorias e workshops sobre tópicos como CNV em questões de equidade e inclusão em organizações, como responder a micro-agressões e manejo de situações violentas. Mais sobre Roxy: http://www.roxannemanning.com 

Janey Skinner é instrutora de CNV, acadêmica do City College de San Francisco e escritora premiada. Saiba mais sobre Janey e leia alguns de seus trabalhos em writer.janeyskinner.com.

Empatia

12/09/2017

“Ouvir somente com os ouvidos é uma coisa. Ouvir com o intelecto é outra. Mas ouvir com a alma não se limita a um único sentido – o ouvido ou a mente, por exemplo.
Portanto, ele exige o esvaziamento de todos os sentidos. E, quando os sentidos estão vazios, então todo o ser escuta. Então ocorre uma compreensão direta do que está ali mesmo diante de você que não pode nunca ser ouvida com os ouvidos ou compreendida com a mente.” 
(Chuang Tzu)

Palavras de Marshall Rosenberg sobre Empatia:

Empatia é uma compreensão respeitosa do que os outros estão experienciando.
Em vez de oferecer empatia, muitas vezes nós temos o impulso de dar conselhos ou concordar e explicar nosso própria posição ou sentimento. A empatia, no entanto,
nos convida a esvaziar a mente e escutar os outros com todo nosso ser.

Na Comunicação Não-Violenta, não importa que palavras o outro tenha usado para se expressar, nós simplesmente escutamos suas observações, sentimentos, necessidades e pedidos. Então podemos desejar refletir de volta, parafraseando o que entendemos. Nos mantemos em empatia, permitindo ao outro a oportunidade de se expressar completamente antes de voltarmos nossa atenção para soluções ou pedidos de alívio. 

Nós precisamos receber empatia para poder oferecer empatia. Quando percebemos que estamos sendo defensivos ou incapazes de empatizar, precisamos (A) parar, respirar, dar empatia a nós mesmos, (B) gritar não-violentamente, ou
(C ) dar um tempo.”

“Empatia, eu diria, é presença. Pura presença em relação ao que está vivo na pessoa neste momento, não trazendo nada do passado. Quanto mais você conhece uma pessoa, mais difícil é a empatia. Quanto mais você estudou psicologia, mais difícil é a empatia. Porque você não pode trazer nenhum pensamento do passado. Se você surfa, você provavelmente é melhor em empatia, porque você construiu em seu corpo do que se trata. Estar presente e em conexão com a energia que passa através de você no presente. Não é uma compreensão mental”. 

“Na empatia você não fala nada. Você fala com seus olhos. Você fala com o corpo. Se você diz qualquer palavra que seja, é porque você não tem certeza que está com a pessoa. Então você pode dizer algumas palavras. Mas as palavras não são empatia. Empatia é quando a outra pessoa sente a conexão com o que está vivo em você”. 

Desacelerar

12/09/2017

“Para praticar a CNV (Comunicação Não-Violenta), é fundamental para mim ser capaz de desacelerar, ir no meu tempo, para partir de uma energia que eu escolher, uma que eu acredito que nós fomos destinados a vivenciar, e não aquela na qual eu fui programado. Eu começo o dia com uma lembrança de onde eu quero estar.” (Marshall Rosenberg, fundador da Comunicação Não-Violenta)

“To practice NVC (Nonviolent Communication), it’s critical for me to be able to slow down, take my time, to come from an energy I choose, the one I believe that we were meant to come from, not the one I was programmed intoDesacelerar. I start the day with a remembering of where I want to be.” (Marshall Rosenberg, founder of Nonviolent Communication)

Presença e conexão

14/08/2017

Desde muito jovens nós dois (eu e Yuri Haasz) damos aulas e atuamos com processos grupais e de desenvolvimento pessoal: ensino de idiomas, aikido, yoga, meditação, psicoterapia, e mais tarde: cursos, treinamentos, consultoria e facilitação de metodologias e processos participativos e colaborativos de cocriação, tomada de decisão e de transformação de conflitos, como Democracia Profunda, Art of Hosting (World Cafe, Open Space, Investigação Apreciativa, etc), Processo U, Comunicação Não-Violenta (CNV).

Desde cedo percebemos que compartilhar conhecimentos e facilitar aprendizados, vivências e insights de outras pessoas depende muito mais da qualidade de nossa presença e nossa conexão (conosco mesmos e com as pessoas), do que apenas de nosso conhecimento teórico ou técnico. Nossa experiência de vida integrando os conhecimentos no dia a dia, a coerência e a congruência em buscar viver de verdade esses novos paradigmas e modelos é o que realmente faz diferença.

Quando nos perguntam sobre os conhecimentos e abordagens com os quais trabalhamos e que consideramos tão preciosos e transformadores, dizemos que não se resumem a metodologias, técnicas, métodos ou ferramentas. Todos esses processos podem trazer transformações profundas e significativas ou podem não significar nada, não surtir efeito algum ou até mesmo causar danos, dependendo da qualidade de experiência, intenção, presença e conexão do facilitador, professor, consultor, psicólogo, ou coach.

Oto Scharmer, professor da MIT, renomada universidade americana, apresenta a Teoria U como uma jornada rumo ao exercício da liderança a partir de nossas mais altas possibilidades futuras, enfatizando a importância de iluminar o que ele chama de ‘ponto cego’, a fonte de onde se origina nossa atenção e ação.

Scharmer afirma que “a mesma pessoa na mesma situação fazendo a mesma coisa pode produzir um resultado totalmente diferente dependendo do lugar interior a partir do qual essa ação está vindo.” Diz ainda que “para lidar com os desafios de nosso tempo, precisamos aprender a deslocar o modo como prestamos atenção, a estrutura de campo de nossa atenção. O modo como prestamos atenção – o lugar do qual operamos – é o ponto cego em todos os níveis da sociedade.”

Desta forma, encorajamos as pessoas que querem atuar com desenvolvimento pessoal e se tornar facilitadoras de processos em grupo, a voltar seu olhar e consciência para a própria experiência pessoal e para este lugar interno a partir do qual operamos, essa fonte de onde se origina nossa intenção, atenção e ação, e desenvolver qualidades de presença e conexão. Aprender técnicas, sequências de exercícios, atividades e dinâmicas é o menos importante. Quanto estamos conectados com a essência e os princípios desses conhecimentos, e estamos presentes e conectados, fica fácil co-criar atividades específicas que façam sentido a cada momento com cada grupo ou pessoa.

presence
Presença (ideograma chinês)  

 

Anel

11/08/2017
Hoje me roubaram um anel. Minha aliança. Era de prata, com um filete de ouro. Compramos um dia antes de nos casarmos no cartório, após 10 anos vivendo juntos. Nos casamos para que eu pudesse acompanhar o Yuri num mestrado de dois anos no Japão. Sem esse pedaço de papel emitido pelo cartório eu só poderia ficar 3 meses no Japão.
 
Desde criança, quando voltava a pé da escola para casa, eu tirava o relógio do meu pulso e colocava na mochila ou no bolso. Ninguém havia me orientado a fazer isso, era algo que fazia por medo, preocupação – estava sempre atenta ao que ocorria em volta, ao movimento das pessoas e qualquer situação que pudesse significar algum risco. A noite antes de dormir imaginava rotas de fuga, saída pela janela, pelo muro, em caso de algum ladrão entrar em nossa casa. (Felizmente nunca ninguém entrou). Apenas quando morei no Japão senti o que é andar na rua relaxada, sem nenhuma preocupação.
 
Hoje andando na rua da minha casa em direção à praça onde costumo correr, percebi uma moto vindo na direção contrária, um rapaz meio gordinho, andando devagar, como se estivesse procurando o número de uma casa. Meu corpo sentiu certa tensão, mas não dei atenção… A moto passou por mim, deu meia volta e me “fechou”. Demorei alguns segundos para perceber que era um assalto, pois ele parecia uma pessoa simpática, seu tom de voz não era ameaçador apesar de dizer: tire a aliança senão vou te machucar.
 
Na hora foi um misto de pensamentos e sentimentos… surpresa, choque, angústia, irritação, insegurança, um certo desespero e vontade de me livrar logo da situação… pressa! Ao mesmo tempo, estava calma…
 
Tirei logo a aliança e entreguei para ele. Queria que ele fosse embora o mais rápido possível. Sensação de falta de poder, de falta de escolha, liberdade, autonomia.
 
Tive vontade de voltar para casa mas resolvi ir até a praça tentar me desfazer dessa sensação ruim.
 
Pensamentos diversos passavam pela minha cabeça. Tentando justificar a situação, me culpando por andar por este lado da rua e não do outro, por não dar atenção aos sinais do meu corpo, mas pelo menos ter seguido a intuição de sair sem celular neste dia, culpando o cara que não aparentava precisar roubar para ter as coisas… esses pensamentos me traziam raiva… depois talvez numa tentativa de diminuir a raiva, surgiam pensamentos imaginando o cara caindo da moto – e essa imagem me dava uma certa alegria, sensação de vingança, ou algo do tipo… Também surgiram pensamentos tentando imaginar que ele está fazendo o melhor que pode e que sabe, que deve estar numa situação difícil principalmente internamente para decidir roubar anéis de mulheres na rua…
 
Enquanto corria deixei pensamentos e sentimentos passarem por mim tentando apenas observá-los e vê-los passar, sem julgá-los… numa experiência quase meditativa.

Todavia

10/08/2017

Texto de Carmen Nakasu de Souza

Ela ouve seu marido rir-se dela
Diariamente
Ela ouve seu marido ignorar o que ela diz
Alegremente
Ela ouve seu marido tratá-la como uma ignorante
Religiosamente

Todavia
Aconteceu com sua mãe
Com sua avó
Com sua bisavó
Com sua tataravó
Com todas as boas mulheres que a precederam
Até os primeiros tempos, cuja grande culpada fora também uma delas.

(Toda via leva a Eva)

A escuta empática não funciona. A menos que seja uma escuta empática.

03/08/2017

Texto de Robert Krzisnik – 02.08.2017
(Tradução: Sandra Caselato)

 

ROBERT

 

Cerca de 15 anos atrás eu tinha interações regulares com um conhecido com quem eu tinha ‘um pé atrás’, muitos julgamentos em relação a ele, e nossas interações não eram fáceis.

A vida mudou de uma maneira que hoje em dia nos encontramos apenas brevemente a cada poucos anos, mas ainda me lembro de uma sabedoria que ele articulou, e eu só comecei a apreciar ultimamente. No meio de semanas de interações complexas e emocionalmente difíceis, ele disse:

“Você vê, um dia, depois que tudo isso tiver passado, talvez até mesmo em nossos leitos de morte, acabaremos abrindo os corações um ao outro e descobriremos que na verdade nos amamos. Por que então devemos esperar tanto tempo para nos dar conta disso? Por que não começamos a nos tratar de acordo com o amor que já existe no fundo de nossos corações?”

A clareza e a pureza deste convite me tocaram já naquele momento, mas eu não queria que isso realmente me afetasse, então eu continuei empurrando essa ideia para fora do nosso campo de relação. E fui muito bem-sucedido, devo dizer.

Hoje em dia, envolvido em várias interações diferentes e me lembrando de muitas outras do passado, eu me recordo dessas palavras e vejo o quão profundamente elas apontam para um certo perigo que se encontra no campo da interação e da comunicação humana, e especificamente também dentro do campo da comunicação não-violenta (CNV) e da prática da escuta empática, que está em seu cerne.

Na minha experiência, a compreensão empática pode, entre os praticantes da CNV, tornar-se rapidamente uma atividade mecânica que fazemos uns com os outros, levando a uma frustração contínua. Por exemplo, eu tenho um conflito com minha parceira, ela se expressa, eu digo de volta corretamente o que ela falou e então eu continuo com o meu: “mas, mas, mas…” ou, se eu sou realmente habilidoso, eu enrolo com “e, e, e …”

Eu ainda permaneço fixo dentro do meu ponto de vista sobre quem está certo (eu) e quem está errado (você). Eu ainda protejo meu pequeno eu, meu pequeno universo conhecido. Nada muda, apenas nosso campo de interação fica cada vez mais esgotado de energia, de esperança, de fluxo… ficamos mais cansados, começamos a desistir de nossas necessidades, abrir mão do que é importante…

Um dos meus muitos mentores, Kazuma Matoba, disse que, para ele, em essência, comunicação significa estar disposto a ser influenciado. Eu não poderia concordar mais com esta declaração. Ou seja, quando eu ouço você, estou honestamente disposto a ouvir a humanidade em você? Estou realmente, honestamente, tentando ouvir a dor em seu coração inocente? Estou realmente não apenas aberto, mas também disposto a ser influenciado por você e o que estou ouvindo de você?

Somente quando honestamente me inclino em direção a você, a fim de ouvir seu coração e deixar seu coração tocar o meu, apenas quando me abro o suficiente para que meu coração seja transformado por você, só então eu estou realmente ouvindo empaticamente e me conectando com você. E quando meu coração for tocado e transformado por você, eu terei mudado, meu mundo estará maior e minha realidade ganhará outra dimensão. Mais uma voz será adicionada ao coro universal da vida que eu venho ouvindo.

Só então posso esperar que uma mudança em nosso campo aconteça…

Se minha intenção não é ouvir assim, com todo meu coração e abertura, eu posso escolher outra maneira de gastar meu tempo, em vez de enganar a mim mesmo de que sou um bom ouvinte.

Texto original em inglês:
http://www.thatfield.eu/blog/empathic-listening-does-not-work-unless-it-is-empathic-listening