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Reconexão

06/04/2020

A folha seca da tristeza cai da árvore.
Com pesar, dança pelo ar carregada pelo vento do destino até chegar no chão.
Não há nada que possa fazer para evitar sua sina.
O mundo e a dor do mundo são maiores do que ela.
Se recosta, impotente, prostrada e cansada sobre a terra.
Sem esperança, se entrega ao seu definhar.
Começa a dissolver, desaparecer, desintegrar…

Porém, sua extinção se torna gênese:
A morte é também renascimento.
Sua decomposição é nutrição, adubo fértil e potente.
Deixa de ser folha para se unir ao todo.
Se torna Gaia, Pacha Mama, planeta Terra,
Sustentando o ciclo da Vida.

(Sandra Caselato, 1/4/2020)

…………………….

Reconnection

The dry leaf of sadness falls from the tree.
With regret, it dances through the air carried by the wind of destiny until it reaches the ground.
There is nothing it can do to avoid its fate.
The world and the pain of the world are bigger than it.
It lies back, helpless, prostrate and tired on the ground.
Without hope, it surrenders to his languishing.
It starts to dissolve, disappear, disintegrate …

However, its extinction becomes genesis:
Death is also rebirth.
Its decomposition is nutrition, fertile and potent fertilizer.
It stops being a leaf to be united to the whole.
It becomes Gaia, Pacha Mama, planet Earth,
Sustaining the Life cycle.

(Sandra Caselato, April 1st, 2020)

Corpo

13/12/2019

Hoje eu perguntei ao meu corpo o que ele precisava,
O que é uma grande coisa….
Considerando a minha jornada de,
Verdadeiramente, não pedir muito.

Eu pensei que ele podia estar precisando de mais água.
Ou proteína.
Ou verduras.
Ou yoga.
Ou suplementos.
Ou movimento.

Mas enquanto eu estava no chuveiro
Refletindo sobre suas estrias,
Sua redondeza onde eu gostaria de ser plana,
Sua moleza onde eu gostaria de ver firmeza,
Todos aqueles desejos condicionados
Que formam um pacote de
“Nunca-plenamente-bom”

E ele sussurrou bem gentilmente:

“Você pode me amar assim mesmo como sou?”

Por Hollie Holden
Crédito da foto Nina Djaerff

mulher

AUTOBIOGRAFIA EM 5 CAPÍTULOS

13/12/2019

CAPÍTULO 1

Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio…
Estou perdido… sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída.

CAPÍTULO 2

Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.

CAPÍTULO 3

Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele ali está
Ainda assim caio… é um hábito.
Meus olhos se abrem.
Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente.

CAPÍTULO 4

Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.

CAPÍTULO 5

Ando por outra rua.

(Texto extraído do livro “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer” – Sogyal Rinpoche – Editora Talento / Palas Athena)

A casa de hóspedes

02/04/2019

O ser humano é uma casa de hóspedes.

Toda manhã uma nova chegada.

A alegria, a tristeza, a falta de sentido, como visitantes inesperados.

Receba e entretenha a todos

Mesmo que seja uma multidão de dores

Que violentamente varrem sua casa e tiram seus móveis.

Ainda assim trate seus hóspedes honradamente.

Eles podem estar te limpando

para um novo prazer.

O pensamento depressivo, a vergonha, a raiva,

encontre-os à porta sorrindo.

Agradeça a quem vem,

porque cada um foi enviado

como um guardião do além.

— Rumi (Mestre sufi do sec. XII)

porta

O que é ajudar?

04/08/2018

(Por Sandra Caselato)

Talvez uma das coisas mais importantes que aprendi experimentando e estudando a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) e a Comunicação Não-Violenta (CNV) tem a ver com a pesquisa do Carl Rogers (criador da ACP) sobre a Relação de Ajuda (da qual participou Marshall Rosenberg (criador da CNV)).

Parece um paradoxo, mas tenho experimentado nesses 15 anos como psicóloga e estudiosa e “experimentadora” da CNV e da ACP, que o que mais “ajuda” uma pessoa não é “tentar ajudar”, mas apenas estar junto com ela naquilo que está acontecendo com ela no momento, acompanhar a pessoa no que está “vivo” para ela a cada momento, sem tentar resolver, modificar, transformar, sugerir…

Apenas estando com a pessoa estou dando espaço para que as transformações possam acontecer naturalmente, no ritmo da pessoa, sem que eu tente dirigir ou forçar transformações… É como observar o desabrochar de uma flor… Eu posso estar ali presente observando, admirando, apoiando e  contribuindo com as condições necessárias para que ela desabroche (água, luz, etc.), mas se eu tento ajudar a flor a se abrir mexendo em suas pétalas, acabo interferindo no processo e posso até inadvertidamente acabar destruindo a flor…

A noção de empatia para mim está muito ligada a esse respeito e confiança profundos de que a pessoa é capaz de encontrar seu próprio caminho e a melhor maneira que eu tenho para apoiá-la é estar junto com ela, com o que está vivo para ela a cada momento. É uma confiança plena no que Rogers chamou de Tendência à Auto Atualização – a tendência inata de todo ser vivo a se mover em direção a encontrar formas de suprir suas necessidades vitais.

 

 

Fórum ZEGG

09/06/2018

Do site da Comunidade Zegg: https://www.zegg.de/en/program/zegg-forum/52-zegg-community/144-zegg-forum.html

(Tradução e adaptação: Sandra Caselato)

 

Em 1978, a comunidade Zegg surgiu a partir da ideia de criar as bases para uma nova cultura, livre de violência, em harmonia com a natureza e com todos os seres. Para isso, precisávamos de um processo forte, capaz de gerar confiança. Este foi o começo do que hoje chamamos de Fórum ZEGG.

Nesse meio tempo, o Fórum se espalhou da nossa comunidade para o mundo. Muitas comunidades em muitos países aprenderam o Fórum com instrutores da comunidade ZEGG e o estão utilizando em seu próprio processo de construção de comunidades.

Em nossa experiência, o Fórum é uma das maiores ferramentas para criar a coesão de um grupo.

 

A transparência cria confiança

O Fórum ZEGG é um processo profundo e íntimo para grupos com até 50 participantes. O objetivo é revelar o que é autêntico, vivo e verdadeiro dentro de nós. O Fórum propicia um espaço de confiança e abertura entre as pessoas. Os participantes experimentam a liberdade para serem quem realmente são, enquanto os outros testemunham esse processo pessoal. Em muitas circunstâncias sociais, “ser observado através dos olhos dos outros” pode ser experimentado como “a morte das minhas possibilidades”. O Fórum supera essa dificuldade. Nesse ambiente de apoio, os olhos dos outros deixam de ser “a morte de minhas possibilidades” e, ao contrário, servem como geradores de cura, crescimento e empoderamento. Eu posso experimentar estar totalmente protegido enquanto exponho minha profunda vulnerabilidade. Posso experimentar que a minha maior abertura é a minha maior proteção, pois sou aceito e apoiado por outros.

O Fórum cria uma grande compreensão mútua através do contato com esta jornada interna e externa. Durante a jornada, certamente também encontraremos nossas dores escondidas na sombra. Se permanecermos presentes com elas, seremos capazes de sentir os sentimentos envolvidos e seguir em frente, fortalecidos. O processo ajuda a todos os envolvidos a ir além da polidez e além dos jogos sociais de disfarce e de se esconder. Uma pessoa conectada com sua verdade interior, não importa quão machucada esteja, é sempre bonita e o processo cria amor. “Enxergar profundamente é amar” – essa é muitas vezes a experiência que se ganha no Fórum.

 

A prática do Fórum 

Os participantes do Fórum geralmente assumem um dos três papéis: o “apresentador” ou “protagonista“, o “facilitador” do Fórum e os “espelhos“.

O grupo se reúne em um círculo. O protagonista entra no meio para compartilhar sua experiência interior atual, algo que esteja em movimento. Ele é convidado a usar todo o espaço do centro, sentindo-se livre para se movimentar, falar, agir e se conectar com seus sentimentos. O único objetivo é ser ou se tornar autêntico. No centro, a pessoa pode ser melhor ouvida em diferentes níveis do que se permanecesse sentada no círculo.

Os “espelhos” ouvem ‘verbal e intelectualmente’ e tentam estar atentos a outros aspectos, como o tom de voz, os movimentos do corpo e a “energia” do apresentador. O círculo apoia o protagonista com sua plena presença e consciência amorosa. O papel das pessoa no círculo é perceber e testemunhar o processo de quem está no centro. Pode ser muito poderoso e tocante testemunhar uma pessoa indo mais fundo em seus processos.  Frequentemente, os tópicos abordam problemas que muitos outros no grupo também têm e seus próprios processos são acionados. Assim, podemos aprender que nossos processos emocionais são semelhantes; tudo o que acontece no centro serve como um exemplo de processos semelhantes em muitos dos que observam.

Os “facilitadores” desempenham um papel importante no processo do Fórum e passam por um treinamento profundo. Isso os ajuda a se tornarem mais autênticos e a aprender a permanecer presentes com as emoções que podem surgir no círculo. Os facilitadores atuam como “parteiras” para auxiliar o processo autêntico pelo qual passa o apresentador. O ideal é que haja dois facilitadores – um homem e uma mulher. Apenas os facilitadores interferem no processo: eles podem intervir a qualquer momento (mas os outros observadores não intervêm). Os facilitadores recebem a confiança do grupo para guiar o processo de acordo com sua experiência e intuição. O objetivo do facilitador é apoiar a revelar a verdade pessoal de quem está no centro, seu poder e potencial.

 

Empatia – apoio por meio de feedback entre pares

Quando o protagonista termina, outras pessoas podem entrar no centro para compartilhar o que perceberam. Nós chamamos isso de “espelho“. Isso significa que os participantes oferecem sua perspectiva pessoal do que viram. É um presente para o protagonista saber o que os outros pensam ou sentem sobre ele e o que têm a dizer, a fim de complementar, ampliar e aguçar a questão apresentada.  No caminho de crescimento da experiência pessoal, essa forma de feedback social é indispensável.

O espelho não é oferecido a partir da cadeira no círculo, mas a partir do centro [quem oferece o espelho fica em pé dentro do círculo]. Isso ressalta a natureza pessoal do espelho – é uma percepção pessoal. Cada espelho é subjetivo. E é assim que deve ser. É o protagonista que assume a responsabilidade de aceitar ou recusar o insight de um espelho, dependendo se faz sentido para ele ou não. Mesmo o melhor espelho é apenas um sinal no nosso caminho; isso não nos poupa de andar por nós mesmos.

Um Fórum eficaz e habilidoso trará a tona nossas sombras temidas com humor, ou de maneira teatral e não personalizada, para que possam ser percebidas sem julgamento. Às vezes, a mudança de energia pode ser muito sutil, como quando o facilitador convida o apresentador a se mover mais rápido, ou a exagerar nos gestos, ou a colocar um som no sentimento. Experimentar formas diferentes de comportamento e processos emocionais teatrais ajuda o protagonista a se afastar de seus estados emocionais. Ele aprende que ele é mais do que apenas suas emoções mutáveis.

 

Nós vemos o Fórum como nossa contribuição para o mundo que queremos ver – um mundo que se forma a partir do fundo do coração das pessoas. O Fórum faz parte da cola que mantém a nossa comunidade viva e unida, ele está no coração da nossa comunidade. 

 

Por que a gente não conversa normalmente?

20/05/2018

(Por Sandra Caselato e Yuri Haasz)

“Por que a gente não conversa normalmente?” – disse, bastante irritada, a pessoa mais privilegiada presente na sala onde estávamos, na Palestina no início do ano.

O privilégio não é algo estático, mas sempre relativo dependendo da pessoa e da situação. Por exemplo, um homem tem certas vantagens sistêmicas em relação a uma mulher em nossa sociedade (pesquisas estatísticas em vários países mostram que homens ganham mais que mulheres na mesma função por hora, por exemplo). Porém se este homem for negro, ele está sujeito a discriminação racial e mulher branca não. Uma pessoa cisgênera, que se identifica com o gênero (masculino ou feminino) atribuído a ela pela sociedade de acordo com o sexo biológico com que nasceu, tem mais vantagens em relação a pessoas transgeneras (que não se identificam com o gênero que lhes foi designado socialmente). Essas pessoas muitas vezes sentem que estão ‘no corpo errado’, são menos aceita pela sociedade e sofrem discriminação (o Brasil é o país que lidera o ranking mundial de assassinatos de transexuais). Porém se uma pessoa transexual tem bastante dinheiro, ela possui mais privilégios em nossa sociedade do que outras que não tem. Outro exemplo, em relação a nacionalidade: uma pessoa com passaporte americano ou de um país pertencente a União Europeia, tem mais facilidade para viajar a outros países do que quem tem passaporte brasileiro. Estes são apenas alguns exemplos de como o privilégio é sempre relativo a características e situações específicas.

Voltando à pessoa que disse  “Por que a gente não conversa normalmente?”,  ele é um homem branco, heterossexual, cisgênero, americano/israelense, de classe média alta, que ‘acumula’, portanto, vários privilégios, ou vantagens sistêmicas. No mesmo ambiente haviam outros homens e mulheres, todos ativistas, que buscam de maneiras diferentes por meio da não-violência, contribuir para transformações no contexto Israel/Palestina. Eram pessoas americanas, israelenses, palestinas, palestinas/israelenses, (nós dois brasileiros), brancas, não brancas, cisgêneras, hetero e homossexuais, judias, muçulmanas, cristãs, ateias, de várias idades.

Temos visto a tendência crescente dentro do ativismo em causas diferentes a uma maior conscientização em relação à importância da interseccionalidade das ‘causas’. Ou seja, vemos cada vez mais o reconhecimento de que as diferentes estruturas de dominação se interrelacionam, criando um sistema de opressão que reflete a sobreposição de múltiplas formas de discriminação. Por exemplo, o racismo, o sexismo, o classismo, o capacitismo, a homofobia e a transfobia e intolerâncias baseadas em crenças — não agem independentemente uns dos outros, mas interagem em níveis múltiplos e simultâneos. Da mesma forma que os privilégios se acumulam, as desvantagens (ou desprivilégios) também se sobrepõem. (Este conceito de interseccionalidade foi criado dentro do contexto do feminismo negro, principalmente por Kimberlé Crenshaw. Para saber mais sobre interseccionalidade, assista este TED Talk: https://www.youtube.com/watch?v=akOe5-UsQ2o )

O ativismo pelos direitos dos povos indígenas, por exemplo, está mais atento às questões de gênero e empoderamento feminino, como se pode ver nos vídeos a seguir:

A causa LGBTQIA busca também trazer à tona questões raciais e preconceito de classe, como acontece por exemplo na Conferência Internacional [SSEX BBOX], todo ano em São Paulo: http://ssexbbox.com

Da mesma maneira, o ativismo por justiça e pelos direitos dos palestinos está cada vez mais trazendo luz a questões de gênero e outras formas de opressão que se sobrepõem. Não foi diferente neste encontro  onde foi dita a frase “Por que a gente não conversa normalmente?”.

Apesar de racionalmente muitos ativistas estarem mais atentos às diversas questões de privilégio de raça, cor, nacionalidade, gênero, etc, suas ações ainda reproduzem muitas vezes essas opressões estruturais. E então, na tentativa de mudar um sistema de opressão acabam sem querer reproduzindo outras violências estruturais.

Neste texto, Noam Shuster Eliassi fala sobre como muitos ativistas judeus/israelenses de vários anos acabam perpetuando as desigualdades que querem erradicar: https://www.haaretz.com/opinion/.premium-why-is-the-american-jewish-left-so-white-1.6034201

A conversa ‘normal’ é talvez uma das formas mais imperceptíveis de reproduzirmos essas desigualdades. É como se ao ‘normalizar’ elas se tornassem invisíveis, principalmente para quem sofre menos o impacto dessas desigualdades, pois está em posição de mais privilégio ou, em outras palavras, de vantagem sistêmica, onde tem menos oportunidade de vivenciar situações em que o sistema não lhe inclui, e portanto tem mais dificuldade de entender que há outros que talvez não vivenciem o sistema da mesma forma.

Muitas abordagens, métodos, técnicas, processos, metodologias e tecnologias sociais conseguem contrabalançar essa tendência humana de ‘reproduzir o conhecido’, que dificulta e retarda transformações importantes nas diversas estruturas de poder das nossas sociedades. Dentre elas estão a Comunicação Não-Violenta (CNV); Abordagem Centrada na Pessoa (ACP); Processo U (Teoria U); Arte de Anfitriar Conversas Significativas (Art of Hosting – AoH), que engloba World Cafe, Pro Active Cafe, Apreciação Investigativa, Círculo, etc; Sociocracia; Democracia Profunda; Forum (Zegg); entre ouras.

Ainda assim, entre pessoas envolvidas com esses processos, as estruturas de poder também acabam se reproduzindo. Um exemplo de ‘machismo estrutural’, descrito por Sandra Caselato, aconteceu num encontro de facilitadores de várias dessas metodologias citadas acima: https://psicosaude.wordpress.com/2017/03/11/machismo-estrutural/

Apenas o fato de buscarmos praticar uma dessas abordagens que desnormalizam as formas de interagirmos não é em si garantia de que não reproduziremos as estruturas e relações de poder nas quais fomos socializados e que se tornaram parte de nossa identidade. É um exercício constante manter um olhar questionador para perceber se inadvertidamente estamos reproduzindo os modelos que estamos buscando transformar.

Voltando à pergunta “Por que a gente não conversa normalmente?”, esse questionamento foi feito durante um processo de Fórum, em que se sentam de 15 a  50 pessoas em círculo e um por vez vai ao centro e se expressa sem interrupções (com exceção de possíveis intervenções dos facilitadores do processo) e recebe escuta atenda e silenciosa, sem julgamentos, dos demais participantes. O objetivo é trazer à luz as coisas ‘não ditas’, numa pesquisa e investigação sobre questões profundas da consciência humana, a fim de fortalecer as relações e a conexão entre as pessoas.

Estávamos realizando este processo e devido a essa estrutura ‘anormal’ de fala e escuta, proporcionada pelo Fórum, coisas preciosas que nunca haviam sido expressas puderam ser ditas, dentro desse contexto do ativismo conjunto judeus/palestinos. As falas sobre o ‘não dito’ vieram principalmente das pessoas menos privilegiadas, que têm suas vozes menos escutadas no espaço coletivo – seja porque não se sentem tão à vontade e confiantes para falar, seja por terem ‘mais a perder’, seja porque suas falas não são tão ouvidas e valorizadas quanto as de outras pessoas com mais vantagens sistêmicas.

Na conversa ‘normal’ as estruturas de privilégio, vantagens e desvantagens sistêmicas, e as relações de poder nas quais estamos mergulhados culturalmente, tendem a se reproduzir. Os mais privilegiados se sentem mais a vontade para falar e portanto tomam mais espaço, e são mais valorizados, enquanto as vozes menos privilegiadas são menos ouvidas ou consideradas.

Então é por isso que cada vez mais preferimos e valorizamos as conversas ‘anormais’, estruturadas de maneira a buscar garantir igualdade de espaço e tempo para todas as vozes e contribuir para transformar as estruturas de poder e privilégio.

Durante nosso encontro na Palestina, o homem que disse “Por que não conversamos normalmente?” entrou no centro do círculo no Fórum e expressou que estava bastante irritado,  incomodado e bravo mesmo com toda a estrutura e “rigidez da conversa”, que para ele “não tinha vida”, “não tinha interação”, “não tinha troca” e era uma “perda de tempo”.

Ele não estava enxergando que somente por causa dessa ‘estrutura rígida’ é que várias pessoas puderam dizer coisas que nunca haviam dito antes, em anos de ativismo conjunto, e certamente não diriam numa conversa ‘normal’. Essa é a chamada ‘cegueira do privilégio’ – pessoas em posição de mais privilégio, que estão acostumadas a diversas vantagens nos vários âmbitos de suas vidas, têm mais dificuldade em perceber as desvantagens sistêmicas pelas quais outras pessoas estão passando.

Há uma citação frequentemente atribuída ao autor e professor Clay Shirky que diz que “quando você está acostumado ao privilégio, a igualdade é sentida como opressão”. O que a pessoa sente e percebe como opressão é um deslocamento para fora de sua zona de conforto, para fora da experiência de vivenciar certa facilidade nos inúmeros aspectos de sua vida, já que em grande parte o sistema social em que vivemos foi desenhado, organizado, pensado para favorecer principalmente essas pessoas.

A igualdade então depende de uma reorganização das diversas estruturas sociais, culturais, relacionais, físicas, de identidades, de distribuição de poder e recursos, etc., de maneira que todas as pessoas sejam consideradas igualitariamente.

Nessa readequação, os mais desprivilegiados passam a ter mais vantagens do que tinham antes e as pessoas mais privilegiadas têm suas vantagens reduzidas, passando então a experimentar os sistemas como somente os menos privilegiados experimentavam: algo não estruturado e pensado inteiramente para eles apenas, e sim, em parte, adequados para outros também.